Esta é a primeira lição do caminho e serve um único objetivo: dar-lhe as duas palavras com que quase todas as outras se escrevem. No fim, o vocabulário das fases deixará de soar a jargão de estúdio e passará a descrever algo que consegue localizar por conta própria nos dados públicos.
A ideia de ciclo: repetição sem relógio
Chama-se ciclo económico à alternância de períodos em que a atividade cresce com períodos em que recua. A palavra induz em erro metade das pessoas: sugere um círculo com duração fixa, como as estações do ano, e a economia não tem nada disso. Não existe calendário que diga quando uma fase muda; existe um conjunto de medições que permite, depois de os dados chegarem, reconhecer que a mudança aconteceu.
É útil fixar desde já uma consequência prática desta ausência de relógio: todo o rótulo de fase é atribuído a posteriori. Diz-se que uma economia esteve em contração quando as estatísticas já registaram o recuo, não quando ele começou. Quem espera um sinal perfeito e imediato fica à espera de um objeto que não existe.
Expansão e contração: as duas palavras base
Toda a restante terminologia do percurso se constrói sobre um par. Durante a expansão, a produção total cresce de um período para o seguinte, o emprego tende a acompanhar e o otimismo dos consumidores costuma subir. Durante a contração, a produção total recua; se o recuo se prolonga por dois trimestres consecutivos do produto interno bruto real, fala-se em recessão técnica, uma convenção prática de leitura muito usada na estatística europeia.
Em Portugal, é o INE quem mede e publica o PIB trimestral, e é sobre essas contas nacionais que se apoia a distinção entre crescer e recuar. A série está disponível no site do Instituto Nacional de Estatística, com datas de referência próprias e revisões posteriores que a Lição 3 explica em detalhe.
Vocabulário desta lição
- Ciclo económico
- Alternância de fases de crescimento e de retração da atividade, identificada com dados e sem duração fixa.
- Expansão
- Fase em que a produção total cresce de um período para o seguinte.
- Contração
- Fase em que a produção total recua; dois trimestres seguidos de recuo do PIB real definem a recessão técnica.
- Recessão técnica
- Rótulo descritivo baseado numa convenção estatística; não é um veredicto sobre o bem-estar das pessoas.
Onde entra a bolsa nesta história
A bolsa entra duas vezes nesta história, e convém separar as duas entradas. Primeiro como termómetro discutido: as cotações reagem às expetativas sobre lucros e juros, que por sua vez dependem da fase da economia, pelo que os comentadores leem nas praças financeiras uma leitura adiantada do ciclo. Segundo como personagem própria: as cotações também seguem dinâmicas internas, de liquidez e de humor, que podem divergir durante meses da trajetória da produção e do emprego.
Por isso este caderno trata a relação entre a bolsa e a economia real como um objeto de estudo e não como um atalho: a Lição 6 dedica-se-lhe por inteiro. Para o objetivo desta primeira lição, basta reter que o ciclo económico é descrito por estatísticas oficiais, enquanto a bolsa é um mercado onde essas expetativas são negociadas continuamente.
Dois erros de partida
O primeiro erro é tratar cada notícia económica como se descrevesse uma mudança de fase. A maioria das notícias descreve variações dentro da mesma fase: uma expansão tem trimestres fortes e trimestres fracos sem deixar de ser expansão. O segundo erro é procurar uma data oficial para o início e o fim de cada fase com a pontualidade de um horário de comboio; como vimos, os rótulos chegam tarde e podem ser revistos.
Quem evita estes dois erros já lê melhor a maioria dos títulos sobre economia do que o costume. A lição seguinte organiza as quatro fases do vocabulário e mostra o que cada rótulo significa, e o que deliberadamente não significa.