Esta última lição junta as peças do caminho num roteiro de trabalho. O objetivo não é responder hoje à pergunta do título, que muda a cada divulgação estatística; é deixar um método que responda correctamente em qualquer altura, com fontes primárias e com a dose certa de cautela.
O roteiro de leitura, em cinco passos
Cada passo usa apenas fontes públicas e leva poucos minutos quando os hábitos estão criados.
- Escolher a fonte primária. Contas nacionais no INE, comparação europeia no Eurostat, análises complementares no Banco de Portugal. A notícia que cita um número sem fonte fica em segundo lugar.
- Fixar a data de referência. Que trimestre ou que mês o número descreve, e quando foi publicado. A distância entre as duas datas é parte do dado.
- Comparar janelas temporais. Ler a variação trimestral e a anual do mesmo indicador antes de tirar qualquer conclusão.
- Procurar a revisão mais recente. Confirmar se o valor citado já foi corrigido numa divulgação posterior.
- Anotar o que o dado não cobre. Cada indicador tem zonas cegas; anotá-las evita que a conclusão corra mais do que a medição.
Janelas temporais: trimestre contra trimestre, ano contra ano
A mesma série conta histórias diferentes conforme a janela. A comparação trimestral mostra o ritmo imediato e é a que define a recessão técnica; a comparação anual suaviza a sazonalidade e ajuda a ver a trajetória de fundo. Um trimestre fraco dentro de um ano forte não configura contração, e um trimestre forte pode iludir num ano fraco. Ler as duas janelas emparelhadas, com a mesma fonte e a mesma data de referência, é o gesto técnico mais rentável desta lição.
Há ainda a questão da sazonalidade: as séries trimestrais publicadas pelas instituições já vêm ajustadas de padrões sazonais, mas ajustamentos perfeitos não existem, e períodos atípicos distorcem a leitura de ambos os lados. Mais uma razão para preferir séries longas a retratos de um só trimestre.
As revisões estatísticas mudam o rótulo
As revisões estatísticas não são exceção; são o funcionamento normal da estatística. À medida que chegam respostas aos inquéritos e dados administrativos, o INE e o Eurostat corrigem os valores anteriores, e um trimestre que nasceu positivo pode terminar negativo na série revista. O rótulo de fase, que se apoia nos dados, muda com eles.
Daqui decorre uma disciplina de leitura: quando um dado novo parece alterar a fase, verifique primeiro se não está a comparar séries de vintages diferentes, uma primeira estimativa contra uma série revista. A comparação honesta usa a mesma vintage dos dois lados, e anota a data em que a leitura foi feita.
Lista de verificação antes de concluir a fase
Antes de responder a alguém, ou a si próprio, que fase é esta, percorra a lista na ordem.
- Identifiquei a fonte primária e a data de referência de cada número que vou usar?
- Li a variação trimestral e a anual do PIB real na mesma série revista?
- Confirmei se houve revisões posteriores aos valores citados?
- Olhei para o mercado de trabalho e para a confiança, sabendo que reagem com atrasos diferentes?
- Separei o que os dados mostram do que as expetativas sugerem, sem transformar nenhuma das duas em promessa?
- Escrevi a resposta com a data em que a fiz, sabendo que a próxima divulgação a pode alterar?
Se as seis caixas estiverem assinaladas mentalmente, a resposta que sobra é uma leitura com fontes e data, não uma adivinhação. É o ponto a que este caminho queria chegar: o ciclo deixa-se ler com paciência, e deixa-se explicar sem prometer.