As contrações atraem frases-feitas como nenhuma outra fase do ciclo. Três delas repetem-se tanto que merecem uma revisão com calma, à luz do vocabulário das Lições 1 e 2 e dos indicadores da Lição 3. A regra do exercício é simples: separar o que a frase afirma, o que os dados dizem e o que fica por explicar.
Mito 1, a recessão técnica é só um número
A frase parece sofisticada e está mal resolvida. É verdade que a recessão técnica se define por uma convenção, dois trimestres consecutivos de recuo do PIB real; mas daí não segue que seja burocracia vazia. A convenção existe para criar um ponto de comparação comum entre países e entre épocas, e sem um critério partilhado cada comentador declararia recessões à sua medida.
O que o mito captura, apesar de tudo, é uma insatisfação legítima: a recessão técnica pode coincidir com uma situação em que o desemprego ainda não subiu, ou chegar depois de as pessoas já sentirem aperto. Por isso os estatísticos olham para o conjunto: produção, emprego, rendimento. A conclusão corrigida é esta: o número não é tudo, mas sem o número a conversa perde o chão comum.
Mito 2, uma contração atinge tudo por igual
A imagem mental de uma contração uniforme resiste mal ao contacto com os dados. As contrações concentram-se de forma desigual: setores ligados ao crédito e à construção tendem a sentir primeiro e mais forte; serviços essenciais aguentam melhor; regiões expostas a um só setor sofrem mais do que regiões diversificadas. A esta repartição desigual chama-se ajustamento setorial, e ele explica por que razão duas pessoas na mesma cidade podem viver a mesma contração de formas completamente diferentes.
A parte correta do mito é o aviso implícito: as médias nacionais escondem muito. A resposta não é ignorar o PIB, é lê-lo com a decomposição setorial ao lado, que as contas nacionais também publicam.
Mito 3, desaceleração e contração são a mesma coisa
Desacelerar é continuar a crescer, mas mais devagar; contrair é recuar. A diferença parece óbvia escrita assim e ainda assim as duas palavras são trocadas em conversas e em títulos. Uma economia pode desacelerar durante anos sem registar um único trimestre negativo, e pode contrair-se num trimestre isolado sem que se configure a recessão técnica da Lição 2.
Um artifício de leitura ajuda: substitua a palavra pela imagem. Desaceleração é tirar o pé do acelerador; contração é travar e andar para trás. Se a notícia usar as duas como sinónimos, é sinal de que convém abrir a série trimestral do INE e ver o sinal do número, não o tom do título.
Vocabulário desta lição
- Recessão técnica
- Dois trimestres consecutivos de recuo do PIB real, por convenção partilhada.
- Recessão sentida
- Expressão coloquial para o aperto percebido no emprego e no rendimento, que pode preceder ou seguir a recessão técnica.
- Desaceleração
- Crescimento positivo mais lento; não é contração.
- Ajustamento setorial
- Repartição desigual da contração entre setores e regiões.
Duas perguntas que ficam em aberto
O exercício deixa duas questões sem resposta fechada, e convém registá-las como tais. Primeira: como pesar os setores em tempo real, quando os dados setoriais chegam mais tarde do que o agregado? Segunda: que limiar de aperto sentido justifica falar de recessão para além da convenção técnica? A estrada de verificação é pública: a decomposição trimestral das contas nacionais está no INE e a comparação europeia, com as mesmas definições, no Eurostat. Releia as duas séries em datas diferentes e observe as revisões; é aí que estas perguntas ganham substância.