Caminho do Ciclo · Lição 6 de 8, leitura de 4 minutos

A relação entre a bolsa e a economia real

Como pode a bolsa cair num país em que o emprego sobe? A resposta curta está na relação entre a bolsa e a economia real.

Pilha de cadernos encadernados e uns óculos de leitura sobre uma mesa de escritório em madeira clara
Dois cadernos na mesma mesa: um assenta produção e emprego, o outro assenta transações de bolsa. Nem sempre concordam.

É a pergunta que traz muitos leitores ao tema do ciclo, e merece uma resposta sem atalhos. A tese deste caderno, defendida em seguida, é que a bolsa e a economia real estão ligadas por causas reais, lucros e juros acima de tudo, mas que cada uma segue o seu próprio relógio. Quem trata as cotações como termómetro exato da economia, ou vice-versa, acaba surpreendido com regularidade.

A bolsa não é a economia, e a economia não é a bolsa

Uma praça de valores negocia participações em empresas e precifica expetativas sobre os lucros futuros dessas empresas, descontados às taxas de juro vigentes. A economia real produz bens e serviços, emprega pessoas e paga salários. As duas esferas cruzam-se porque os lucros das empresas dependem da atividade e porque o custo do financiamento depende das taxas; mas cruzam-se com atrasos, com expetativas e com capitais que circulam entre países.

Daqui resulta uma assimetria que o vocabulário do ciclo ajuda a ver: a produção total é medida depois de acontecer, nos trimestres das contas nacionais; as cotações são decididas agora, a cada sessão, com os olhos postos no que se imagina que virá. O mesmo fato de dados serve os dois relógios, mas cada um marca a hora à sua maneira.

Lucros e emprego: os dois relógios

Os lucros das empresas reagem ao ciclo com um ritmo próprio: melhoram cedo numa expansão, porque os custos são rígidos e as receitas acompanham a procura, e deterioram-se antes de o desemprego subir numa contração, porque o ajustamento começa por margens e só depois chega ao emprego. O emprego, por sua vez, é o indicador mais lento do conjunto: empresas demoram-se a contratar em terreno incerto e demoram-se a despedir em terreno apenas mau.

É deste desfasamento que nasce a pergunta do primeiro parágrafo. Uma praça pode estar a precificar lucros menores num trimestre em que o emprego ainda melhora, precisamente porque o emprego é o último a saber. Nenhuma das duas séries mente; medem coisas diferentes com calendários diferentes.

Desacoplamento: quando as duas histórias se separam

Chama-se desacoplamento ao período em que as cotações e a atividade real seguem direções distintas, e ele acontece nas duas direções. A Lição 5 documentou um caso célebre: o recuo tecnológico de 2000 a 2002 foi muito mais severo do que a contração da atividade que o acompanhou. No sentido oposto, há períodos em que a produção melhora e as praças hesitam, absorvendo subidas de juros ou notícias de outros continentes. A própria existência de praças nacionais num mundo de capitais móveis explica parte destes desencontros: uma parte relevante das cotações de um índice depende de empresas com negócios em todo o lado.

Na leitura deste caderno, o desacoplamento não é uma anomalia a explicar com teorias complicadas; é o comportamento normal de dois relógios com motores diferentes. O que importa é acompanhar os dois com dados públicos: as contas nacionais de um lado, as séries de mercado do outro, e a honestidade de não transformar nenhum dos dois numa bola de cristal.

Onde a leitura deste caderno para

As fronteiras desta lição são as do caderno inteiro, mas aqui valem reforçadas: não se avalia empresas, índices nem cotações; não se diz se a bolsa está cara ou barata; não se prevê a próxima sessão nem o próximo trimestre. O objetivo era responder à pergunta do título com honestidade sobre o que os dados permitem e não permitem dizer, e essa resposta está completa.

As exceções ficam registadas: existem períodos em que o desfasamento dura anos, e existem escolas de análise que discordam entre si sobre a importância relativa de lucros e juros. Este caderno não arbitra essa disputa; aponta as fontes e deixa a leitura nas mãos de quem as consultar.

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